Prazer no Futebol

Já dizia a canção “quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol?”. Se perguntarmos a 10 meninos o que querem ser quando “forem grandes”, é provável que por entre os polícias ou bombeiros, surja várias vezes a resposta “futebolista”.
Seja no Brasil ou na China, ao se olhar para um campo de futebol improvisado por 10, 15 ou até 40 crianças, serão sempre notórios os sorrisos, as gargalhadas, os gritos e a emoção.
Todas as semanas essas crianças vêm os seus heróis na televisão aplaudidos e ovacionados, encontrando a glória através de um remate, de um passe ou de uma defesa. É esta glória, aliada ao prazer que as crianças sentem a jogar que as leva a desejarem um dia envergarem os mantos sagrados de Real Madrid, Manchester United ou AC Milan. Nesses campos de sonhos vemos miúdos que durante horas a fio encarnam em Kaka’s, Ronaldos ou Zidanes e é sempre com a cabeça nesses astros que decidem mais cedo ou mais tarde passar do simples futebol de rua para um clube onde possam maximizar as suas capacidades.
Em escalões como “escolinhas”, “infantis” ou “iniciados”, os treinadores (ou será melhor chamar-lhes de pedagogos) têm a consciência que os vectores a aprofundar estão mais ligados ao lado humano do futebolista. Saber perder, saber ganhar, ser humilde ou aprender a jogar em equipa são as primeiras preocupações destes homens. É por isto que quando ao Domingo de manhã vemos um jogo destes escalões é frequente haver resultados avolumados, pois tudo se baseia no talento que estes meninos trazem da “rua” ou do recreio. Não há tempo (nem os jogadores estão preparados para tal nesta idade), para se ensinar a um menino a dinâmica do 4x4x2, ou porque é que em certas situações a defesa à zona é mais recomendável. O prazer de jogar, esse, continua intacto.
É nos “juvenis”, por volta dos 15 anos – e depois nos “juniores” aos 17 – que os “wannabes” começam a ter que articular de forma harmoniosa as vertentes táctica, técnica, física e psicológica, que quanto a mim, formam o losango mais importante do futebol. É neste momento que se vê quem tem estofo para passar a “promessa” e quem não tem. É aqui que aqueles jogadores com menos qualidade ou menos espírito de sacrifício perecem. Mas focando-nos naqueles que conseguem estar acima da média, passar ao próximo nível, divido-os em 2 grupos: aqueles que têm o tal losango bem trabalhado de forma equitativa, e aqueles cujo talento técnico é suficiente para fazer uma equipa depender deles, o que lhes alimenta (e muito) o já de si gigantesco ego: A Vedeta.
As vedetas não existem nos intantis ou iniciados pois quando um “menino” se comporta dessa forma o Treinador está muito a tempo de moldar a sua personalidade, ou caso se torne num caso perdido, de simplesmente encosta-lo. Isto acontece pois nesses escalões não existe a pressão dos resultados. Tal já não sucede nos juvenis e juniores na minha opinião devido a dois factores: Primeiro, nestes escalões já começa a ser incutida a mentalidade – quanto a mim errada – do vencer a qualquer custo. Deixa-se de lado o tal prazer de jogar pela primeira vez; segundo, porque estamos a lidar com um “bicho raro”, o adolescente. O adolescente, principalmente se se tratar de um com um ego elevadíssimo, não aceitará de ânimo leve críticas à sua maneira de ser ou de jogar, e como o Treinador precisa – no caso das vedetas – dele para vencer, fecha os olhos a situações como faltas aos treinos, atitudes de indisciplina para com os companheiros ou mesmo para com o corpo técnico. No fim-de-semana lá estão eles, com a camisola 7 ou 10 nas costas, titulares com a bola e os seus 10 companheiros a seus pés.
É desta maneira que se processa geralmente o crescimento de um jogador de futebol. Ainda assim, falta-lhes passar um teste muito duro, onde mais uma vez será levada a cabo uma triagem: o 1º ano de “Sénior”.
Quanto a mim, é aqui que o Prazer do Futebol desaparece quase por completo. Como de juniores para seniores passa apenas a nata de cada equipa, um grupo muito restrito de eleitos, aqueles que o conseguem são elementos habituados a jogar sempre, a serem o centro das atenções, os “meninos queridos” do Treinador e principalmente, os líderes do balneário; e por isso é preciso um grande poder de adaptação (e de encaixe) para ser possível uma integração saudável num balneário constituído por jogadores de várias faixas etárias, várias nacionalidades, todos eles habituados a serem líderes. Depois disto, tem que haver também uma grande paciência para se aguentar a frustração semanal na maioria dos casos constante de não ver o nome na convocatória. Muitos, infelizmente, perdem-se aqui.
Para aqueles que conseguem ultrapassar mais esse teste, e têm o prazer de concretizar o sonho de menino que era ser futebolista, é como se uma porta se abrisse para uma nova dimensão. É aqui que se toma a consciência que o Futebol não é só bola. Passa-se de ter apenas que responder perante uma equipa e respectivo treinador para se responder perante uma massa adepta, uma direcção, comunicação social, sem nunca esquecer que representam aquilo que os seus ídolos representavam para eles há uns anos atrás, o sonho dos mais novos.
Fora de campo jogam-se interesses, conhecimentos, indulgências. Lava-se dinheiro, constroem-se imagens na comunicação social mas isso são zonas nas quais eu não quero entrar. Limitemo-nos ao “dentro de campo”. Dentro das 4 linhas, diariamente, na minha óptica não se trabalham jogadas de futebol – cantos, livres, etc – mas sim maneiras de se ultrapassarem adversários. Todos os exercícios têm como objectivo a criação de uma máquina composta por 11 elementos que seja capaz de antecipar movimentos adversários e posteriormente aniquila-los com a aplicação dos princípios atacantes trabalhados. Isto atinge-se de uma forma mecanizada, “Fordiana”, atribuindo a cada sujeito a sua tarefa específica para o todo funcionar harmoniosamente. Como é sabido, o homem aprende por repetição, e por isso os treinos muitas vezes são enfadonhos para os jogadores, que se vêm a fazer 30 vezes a mesma saída de pressão, a mesma triangulação, etc… Como se vê aqui, quase não há lugar para o prazer de jogar à bola.
Fim-de-semana: aplicação dos conceitos e princípios trabalhados. Resume-se a isto. Claro que há lugar para os devaneios mágicos de jogadores como Ronaldinho ou Ricardo Quaresma que no fundo são os perseguidores do prazer, aqueles que nunca abdicam dele, mas no geral a equipa limita-se a cumprir o que o Treinador manda. Porquê? Para terem lugar na equipa, para agradarem aos adeptos, acima de tudo, para Ganhar!

Ganhar… no fundo é nisto que o Futebol Profissional se baseia, não há espaço para o prazer de jogar futebol; não há espaço para as gargalhadas que ecoavam nas ruas quando alguém fazia um “túnel”; pouco espaço há para o convívio “pos-jogo” entre todos, vencedores e derrotados; o prazer é destruído pela táctica, pelo desenvolvimento do futebol, e pelo profissionalismo exigível no desporto ao mais alto nível. Quando se trata do nosso clube raramente nos queixamos, queremos é vencer. Mas quando nos lamentamos com a frase “onde está o futebol espectáculo?” devemo-nos lembrar que salvo raras excepções, esse está na rua, nas escolas, nos jogos entre amigos, nos sítios onde há lugar para o prazer de fazer a bola rolar

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