Jovens e depressão

«Não, não passa com a idade»

Durante anos, os médicos pensaram que os jovens haviam de ultrapassar essa fase com a idade. Hoje, sabem que não é assim.

Brianne Camilleri tinha tudo: uns pais atentos, um irmão afectuoso e uma casa confortável perto de Boston. Isto tudo, porém, não evitou a sensação de desespero que a invadiu a partir do nono ano.

«Era como se uma nuvem me seguisse para toda a parte», diz ela. «E não me conseguia ver livre dela.»

Brianne começou a encharcar-se em drogas e álcool. Num domingo, foi apanhada a roubar numa loja. A mãe, Linda, levou-a para casa no meio de «um silêncio penetrante», como ela diz. As nuvens eram tão negras que um dia, pensando que nunca mais veria a luz, Brianne engoliu todos os comprimidos de Tylenol e Advil que encontrou, 74 no total. Tinha apenas 14 anos e queria morrer.

Linda descobriu a filha inerte, tombada no chão. Levada de urgência para o hospital, Brianne convenceu o psiquiatra (e convenceu-se a si mesma) de que tudo não passara de um impulso que não se repetiria. E o psiquiatra até aconselhou os pais a manterem segredo sobre o sucedido. O pai de Brianne, Alan, arrepia-se sempre que se lembra disto. «A doença mental é um problema interior que tem de ser exteriorizado», diz ele. Com um irmão esquizofrénico e uma prima que se suicidou, Alan percebe agora que devia ter visto as coisas doutra maneira.

Após outra tentativa de suicídio, Brianne acabou por ser internada no Hospital McLean, em Belmont, Massachusetts. Actualmente, após quase quatro anos de terapia e antidepressivos, encontra-se bem. É caloira da Universidade James Madison, na Virgínia, integrou a lista dos melhores alunos e passou um semestre na Austrália, uma aventura que deixou os pais preocupados, mas orgulhosos.

Brianne teve sorte. A maior parte dos adolescentes que lutam com a depressão nunca obtêm ajuda. No entanto, os investigadores do Instituto Nacional de Doenças Mentais (NIMH) dizem que os sintomas são evidentes em 2% das crianças (algumas com apenas 4 anos).

Os cientistas dizem ainda que o aparecimento precoce da depressão em crianças e adolescentes é cada vez mais comum. Porquê? Alguns investigadores pensam que as tensões provocadas pelas elevadas percentagens de divórcio, as crescentes expectativas académicas e as pressões sociais podem empurrar mais crianças para situações extremas. Há 20 anos, os médicos consideravam que a depressão era uma doença que apenas atingia os adultos; a irritabilidade e a rebeldia dos adolescentes eram próprias «de uma fase» que os miúdos haviam de ultrapassar. Mas, hoje, os cientistas pensam que se este comportamento é crónico, pode indiciar problemas graves.

Os adolescentes deprimidos apresentam elevado risco de insucesso escolar, isolamento social, promiscuidade, «automedicação» com drogas ou álcool e mesmo suicídio, forte causa de morte da faixa etária entre os 15 e os 24 anos. «Quanto mais cedo se instala a depressão, maior a dificuldade no processo maturativo», diz o Dr. David Brent, professor de Pedopsiquiatria da Universidade de Pittsburgh. A ausência de tratamento da depressão precoce aumenta também as probabilidades de depressão mais grave na idade adulta, bem como de doença bipolar e de perturbações da personalidade.

Mas o diagnóstico é cada vez mais animador para as crianças que são encaminhadas a tempo para uma ajuda adequada. Tanto a medicação antidepressiva como a terapia cognitiva do comportamento (através da conversa, o terapeuta procura ajudar os doentes a identificarem e a lidarem com as fontes da tensão) têm permitido aos adolescentes retomar uma vida normal.

Em breve, estará disponível um tratamento mais eficaz. O Instituto Nacional de Doenças Mentais americano lançou recentemente em 12 cidades a iniciativa Tratamento para Adolescentes com Estudo de Depressão para ajudar a determinar que regime – Prozac, terapia cognitiva do comportamento ou uma combinação de terapias – será o mais adequado para os jovens entre os 12 e os 17 anos.

Segundo o Dr. John March, professor de Psiquiatria da Infância e da Adolescência na Universidade Duke e orientador desta investigação, já há estudos que apoiam a terapia comportamental a longo prazo e o recurso a medicamentos como o Prozac e o Paxil. Estes medicamentos, conhecidos como inibidores selectivos da recaptação da serotonina (ISRS), regulam a forma como o cérebro utiliza este neurotransmissor, que pode afectar a disposição.

Mas o regime de terapia a longo prazo ou de ISRS funciona apenas em cerca de 60% dos casos, e muitos dos doentes recaem dentro do primeiro ano após terem parado com o tratamento. «Esperamos que o estudo nos diga qual a terapia mais indicada para cada conjunto de sintomas», diz March.

Fora do laboratório, a tarefa mais dura pode consistir em detectar crianças em risco. Destas, menos de uma em cada cinco recebe tratamento.

«Muitos pais pensam que ser criança é apenas ser criança, que todos os adolescentes são instáveis, contestatários e irritáveis», diz Madelyn Gould, professora de Pedopsiquiatria da Universidade da Colúmbia. O adolescente típico, segundo ela, deveria ser mais um jovem feliz que o tipo angustiado.

Nas cidades universitárias, a depressão é frequentemente mal diagnosticada, por exemplo como síndroma da fadiga crónica ou outros estados físicos. Phil Lazarus, que dirige a equipa de apoio de emergência da Associação Nacional de Psicólogos Escolares, diz: «Se uma criança parece um pouco deprimida mas tem boas classificações, o mais provável é o professor ou o director de turma não se aperceberem de nada.»

E nem sempre é fácil encontrar a ajuda adequada. Embora existam muitos psiquiatras de crianças e adolescentes, nas zonas rurais ou de famílias de fracos rendimentos a sua falta faz-se sentir.

Aos 13 anos, Jonathan Haynes, de San Antonio, já ia por um caminho perigoso. Ele e os pais, ambos dependentes de crack, eram sem-abrigo, um factor de risco para a depressão. Jonathan fazia o que podia para sobreviver: vendia crack e assaltava casas e carros.

Mas a sua vida começou a melhorar no local mais incrível: a cadeia. Em 1999, os pais, nessa altura limpos de drogas, convenceram-no a pedir apoio. Jonathan, ainda viciado em marijuana, entregou-se à Polícia. No estabelecimento de correcção de menores de Southton receitaram-lhe antidepressivos. Hoje, passados cinco anos, trabalha com pessoas deficientes e vive com a família.

«Segui à risca as minhas prioridades», diz ele. «Tenho de me manter firme. Tenho uns pais fortes. E isso ajuda.»

No caso de Jonathan, os acontecimentos traumáticos contribuíram para a doença. Mas nem sempre o factor desencadeador é óbvio. As alterações hormonais da puberdade afectam a disposição, mas as alterações da estrutura do cérebro também podem desempenhar o seu papel.

Durante a adolescência, a matéria cinzenta do cérebro vai sendo «apurada». Ligações celulares que não são usadas são removidas, criando superauto-estradas que nos permitem, como adultos, focar a atenção e aprender as coisas mais profundamente, explica o Dr. Harold Koplewicz, autor de More Than Moody: Recognizing and Treating Adolescent Depression («Para Além da Má Disposição: Reconhecer e Tratar a Depressão no Adolescente»). Não se sabe se existe relação entre esta actividade do cérebro e a depressão, mas Koplewicz diz que este apuramento do cérebro acontece entre os 14 e os 17 anos, período em que os níveis de doenças psiquiátricas aumentam significativamente. Investigadores das Universidades Duke e do Texas são da opinião de que esta nova e promissora investigação poderá conduzir a um outro entendimento da depressão e a novas formas de a tratar.

Koplewicz acentua que a depressão é diferente nos jovens e nos adultos. «Adolescentes deprimidos são mais reactivos ao ambiente e mais instáveis que os adultos deprimidos», diz ele. «Um homem deprimido é convidado para uma festa e continua deprimido. Um adolescente pode divertir-se, mas se voltar para casa sozinho, o mais provável é voltar a ficar deprimido.»

Pais e adolescentes devem pesar o risco de recorrer a medicação contra os riscos de ignorar a doença – e o risco de suicídio.

Em 1999, durante o primeiro ano numa escola secundária de Nova Iorque, Gabrielle Cryan andou obcecada com a morte. «Falava disso com toda a gente», diz ela. Com a ajuda dos pais, descobriu um terapeuta que chamou a obsessão pelo nome: depressão. Gabrielle também foi medicada com Prozac, que, diz ela, «me libertou da depressão, mas me deixou entorpecida»

A psicoterapia foi mais útil. «A primeira parte do processo de recuperação consistiu em tornar-me mais auto-consciente», diz ela. Antes da terapia, «nunca estava satisfeita». E embora a depressão esteja afastada, ela sabe que a vida nem sempre será perfeita e que pode voltar a ter de a enfrentar. «O ser humano está em contínua transformação», diz Gabrielle. «Mas estou segura de que poderei tomar as decisões certas para atingir os meus objectivos.»

 

By Pat Wingert e Barbara Kantrowitz para seleccoes.pt

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